Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Não sendo a paciência, infelizmente, uma das minhas virtudes, ouvi e digeri, vezes sem conta, que Portugal fechara porque “abusámos no Natal”. Li quilómetros de argumentação que justificassem o teletrabalho, o atraso nas escolas, o encerramento de pequenas e médias empresas, a criação de uma nova parcela de miseráveis.

Tinha que ser, era a saúde pública que estava em causa.

Quando questionava por que razão não podíamos seguir outros exemplos e manter, por exemplo, tudo aberto, mas com restrições e exigir que cada um fizesse a sua parte (leia-se: cumprir o distanciamento), explicaram-me que não podia ser porque éramos um povo de bandalhos. E só com polícia de bastão no ar e livro de multas na mão, é que íamos lá.

Ninguém me contou para onde foi o povo das fábricas e dos serviços nessa fase do “confinamento”. E também não me disseram quantos morreram entre esses que andavam na rua. Tão pouco vi um gráfico catita com mortos por tipo de habitação. Mas tudo bem, tinha que ser. “Eles” é que sabem. Além do mais, todos sabemos que ser latino é pensar na melhor forma de furar qualquer regra que nos imponham.

Depois também me prometeram que os 15 dias seguintes seriam terríveis. Os do Avante. Do primeiro de Maio. Do fim do confinamento em Abril que, segundo o Antunes, estava a ser muito brusco. E como me dizia um amigo “Percebes alguma coisa de saúde e vírus? Então cala-te!”. Fazia sentido. Nem uma injecção consigo aplicar a um camarada, quanto mais discutir variantes do bicho.

Mas fui olhando em redor, tarefa que qualquer um está habilitado para fazer. Comparando cenários, vendo gráficos com resultados semelhantes em países diferentes (nesta parte vi-me aflito para perceber se o Y estava na vertical ou horizontal, admito) e, de certa forma, acumulando informação de duas primaveras, um outono, um verão e um inverno. Aquilo que eu lia nas estatísticas ao fim de um ano e aquilo que via em meu redor, não batia certo com as afirmações do governo português e dos seus especialistas. 

O tempo foi passando e, como a todos nesta pandemia, também a minha vida foi ficando mais complicada. Ir a casa passou a custar dois “bilhetes” por pessoa (avião + teste), o que numa família de quatro significa pagar uma ida para Cancun e não passar de Lisboa. Depois veio a quarentena de 14 dias para quem chegava de “Woodstock”. Portanto, não só custava uma fortuna como era fisicamente impossível, dado que ninguém vai a Portugal uns dias se é obrigado a passá-los todos enfiado em casa.

E o tempo foi passando. Entre a solidão do teletrabalho, a distância da família, dos amigos e dos locais que nos marcam.

E foram-me jurando que em Maio os números disparavam porque o pessoal desfilou no 25 de Abril. Ou porque foram para a praia, para as esplanadas, para a Primark. 

E eu ouvi, acenei com a cabeça e esperei. E esperei. E continuo a esperar. De 15 em 15 dias espero a calamidade que justifique estar preso sem poder ir a casa.

Mas nada. Não há maneira de o pico do inverno se repetir. Os entendidos dizem que é das vacinas, embora estas estejam muito atrasadas. Eu ainda pensei que fosse por não estarmos no inverno dentro de casas geladas, mas passou-me. E continuei a esperar.

Os ingleses criaram um corredor verde para Portugal e o ALLgarve esfrega as mãos. O Costa proibiu que os portugueses mudassem de concelho na Páscoa, mas, se fossem turistas, tudo bem.

Eu continuei a ouvir sem perceber. Já não eram só disparates. Eram disparates que se aplicavam só a alguns.

Até que o sporting fez o favor de se libertar de duas décadas de frustração e soltou o rojão um pouco por todo o país. As imagens em Lisboa mostram mais do que 50 pessoas ao monte. No estádio, nas ruas, no Marquês. Não os contei todos nem medi o distanciamento, mas, arrisco, talvez fossem mais de 50 gajos com menos de 2 metros entre eles. Mas é só um palpite, que eu sou fraco de contas.

Dito isto e visto o que se passou nas comemorações de ontem, toda a argumentação do governo, apoiada nos Antunes da vida, ficou algo coxa. E digo coxa para não usar adjectivação mais ao nível do vernáculo, que não combinaria com o meu estado de tranquilidade e serenidade. Ainda assim, se me desculpassem o incómodo, gostaria de deixar um pedido, calmo e ponderado, às autoridades do meu país, feito por um emigrante que há muitos meses tenta ir a casa:

PODEM FAZER O FAVOR DE IR BRINCAR COM O CA****O E ABRIR, SEM RESTRIÇÕES, A P**A DA FRONTEIRA? E PELO CAMINHO, PODEM METER A M**** DOS TESTES NO C* E A QUARENTENA NA P*** QUE VOS PARIU?

Era só. Obrigado.

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