(Parte 1)

Mais do que revelações, esta segunda parte coloca questões. Uma plataforma de fact-checking que se assumia como um ente moralizador e arauto da transparência, surge afinal como uma entidade sobre a qual se sabe pouco e o pouco que se sabe só levanta mais dúvidas. Aqui segue a segunda parte das minhas “perquirições” (que não são jornalísticas, nem pretendem por agora ser, embora seguindo um estilo investigativo similar). Certamente haverá uma terceira parte, porque analisar as “análises” do Polígrafo à Câmara Municipal de Lisboa merece ainda um maior detalhe.

10 – Quando do lançamento do Polígrafo, em Novembro de 2018, o seu director, Fernando Esteves, para garantir a transparência, prometeu que a as “doações de qualquer pessoa ou entidades, através da plataforma Patreon”, seriam publicamente divulgadas, com a indicação do “nome do doador e a quantia doada”. Entre a promessa e a realidade, como sabemos, vai uma grande distância. No site do Polígrafo consta apenas referência a uma “parceria de natureza editorial” com a Fundação Francisco Manuel dos Santos – que é detida pelo Grupo Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce – e a um acordo com o Facebook no âmbito do programa Third Party. Não são revelados montantes destas parcerias. A única referência que surge é à repartição percentual das fontes de receita do Polígrafo, sendo que 22,29% são de publicidade em 77,71% de “parcerias editoriais com entidades nacionais e internacionais”. Com percentagens não se sabe o valor absoluto. E também essa informação é respeitante a 2019. Nada há em relação a 2020 nem a 2021, que já vai no final do quinto mês. Também nada se diz que apenas a Fundação Francisco Manuel dos Santos e o Facebook são os únicos financiadores, quer a título empresarial quer a título individual.

11 – Segundo um e-mail de “esclarecimento” que me foi entretanto enviado por Ricardo Fonseca, sócio da Conta-me Histórias – e que estava indicado, até anteontem, na ERC como Responsável Editorial do Polígrafo –, a participação social desta empresa foi vendida em Fevereiro deste ano. Na verdade, embora esta transacção não conste ainda no Portal da Justiça – que costuma ser rapidamente actualizada –, sabe-se que, de acordo com o site do Polígrafo, os seus accionistas são agora a Emerald Europe (40% do capital social) e a Episódio Inédito. (60%). Como não consta no site do Polígrafo (nem o Portal da Justiça tem ainda essa informação), ignora-se qual o capital social. Em todo o caso, o Portal da Justiça tem informação sobre a Episódio Inédito, detida integralmente por Fernando Esteves: criada em 13 de Outubro do ano passado, tem um capital social de 1 euro. Leram bem: 1 euro. Um euro de Fernando Esteves serviu para conseguir controlar a empresa que detém o Polígrafo e que tem, como parceiro uma empresa financeira sediada no Dubai e com escritórios em vários países. O Polígrafo também não revela quem são os gerentes actuais da Inevitável e Fundamental, Lda., sua proprietária. No Portal da Justiça, no último registo publicado em 22 de Junho de 2020 constavam como gerentes da empresa proprietária do Polígrafo as seguintes pessoas: Fernando Esteves (simultaneamente director do Polígrafo), João Paulo Vieira (sócio da Conta-me Histórias) e Cristiana Nóbrega, formalmente Controladora Financeira na Emerald Group.

12 – Pese embora Ricardo Fonseca tenha acentuado, no e-mail que me enviou, que “nenhum dos sócios da Conta-me Histórias exerceu responsabilidades editoriais no Polígrafo” e que o seu nome apenas constava no Portal da Transparência dos Media por ter sido ele a “assegurar o registo administrativo do Polígrafo na ERC” – ignora-se porque não foi feito por Fernando Esteves porque era então o único jornalista de entre os “pais” do Polígrafo – sempre existiu uma estranha promiscuidade e uma evidente falta de transparência, mais grave ainda por se tratar de uma plataforma de fact-checking.

13 – Com efeito, Ricardo Fonseca diz no seu e-mail que “o nível de influência editorial [sua e da Conta-me Histórias, Lda.] no Polígrafo sempre foi nulo, como era suposto”. Porém, não explica então qual o motivo para que a Direcção-Geral da Educação tenha feito um ajuste directo para a execução pela Conta-me Histórias Lda. de um website com um jogo denominado “Verdade ou Mentira” sobre desinformação. Foi uma coincidência? Foi uma coincidência que tal se tenha verificado com uma agência de comunicação que tinha como um gerente (João Paulo Vieira) que também era gerente da empresa proprietária do Polígrafo?

14 – Já dou de barato, enfim, que nem sequer seja claro onde, afinal, se encontra a sede do Polígrafo, ou melhor dizendo, da Inevitável e Fundamental, Lda. No site do Polígrafo surge a Praça do Príncipe Real, 11 – 1º, embora este seja um endereço de uma empresa denominada EastBanc Space Manufacturing. O Portal da Justiça diz, porém, que a sede do Inevitável e Fundamental Lda. é na Travessa da Cova da Moura, 2 – 1º, a mesma onde estará a Conta-me Histórias. Onde está o Polígrafo? – esta é a questão que se procurará desvendar numa próxima fase desta investigação (“jornalística” ou “detectivesca”).14 – Além de tudo isto, para uma plataforma de verificação de factos como o Polígrafo – cujo director Fernando Esteves fazia alarde de rigor e transparência tais que nem sequer admitia contratar jornalistas que fossem militantes partidários –, convenhamos que soa um pouco estranho que, além de não se cumprir o prometido de revelar financiadores e montantes (que não provenham da publicidade no site), nunca em nenhuma análise se introduziu um “disclaimer” que identificasse os clientes da Conta-me Histórias, Lda. Por exemplo, nos últimos meses, existem várias situações em que clientes da Conta-me Histórias Lda., então co-detentora do Polígrafo, foram abordados pelo Polígrafo, entre as quais o Grupo José de Mello (hospitais CUF), a EDP (o Polígrafo, mais especificamente Gustavo Sampaio, escreveu uma muito dúbia análise sobre a venda das barragens desta empresa em Dezembro de 2019), o Novo Banco (existe mais de uma dezena de análises a este banco), Jerónimo Martins e sobretudo Câmara Municipal de Lisboa, que tem sido um dos principais clientes da Conta-me Histórias. Em muitos casos, estas análises não são assinadas, surgindo apenas referência a Polígrafo. Ignora-se qual o critério que norteia a não assinatura de algumas análises. Serão feitas por não-jornalistas que, não o sendo, não as podem assinar?

(Continua…)

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