Pedro Almeida Vieira | Economista e Engenheiro Biofisico

Pedro Almeida Vieira

No dia 18 de Maio, quando estava em plena análise crítica do Polígrafo, a minha conta do Facebook foi inopinadamente bloqueada, por “actividade suspeita, o que significa que esteve invisível para toda a gente. Consegui, porém, desbloqueá-la e brinquei com o assunto: escrevendo que “o facto de o Polígrafo – de quem tenho estado a ‘falar’ particularmente esta tarde, duvulgando alguns factos sensíveis – ter uma linha directa com o Facebook é uma mera coincidência…” Fernando Esteves considerou que eu estava a fazer-lhe uma referência directa, e vai daí, num dos pontos (o 8º) seu longo testemunho de 12 páginas, diz que eu o acusei de ele ter mandado minha “página abaixo através da {sua] ‘influência’ no Facebook”.

Bem sei que humor e inteligência nem sempre se conjugam. Na verdade, os responsáveis do Polígrafo têm mostrado que não andam aqui para brincadeiras. Aliás, tanto assim que um dos auges das análises do Polígrafo, no dia 3 de Setembro de 2019, através de um texto anónimo (um contra-senso num fact-checker, só admissível em Portugal), foi a classificação com “Pimenta na Língua”, “o grau máximo de falsidade”, de um texto perfeita e patentemente satírico do site Imprensa Falsa (vd. aqui: aqui).

No último ano, sobretudo desde a pandemia, Fernando Esteves, o director do Polígrafo, sabe que se tornou um inquisidor dos “bons costumes”, leia-se da Narrativa Oficial, sobretudo com a parceria com o Facebook, cujos contornos se desconhecem (e lembremo-nos que, aquando da criação do Polígrafo, Esteves prometeu divulgar os montantes de todos os apoios). Além disso, é bom também recordar que desde o dia 2 Março de 2020 – ou seja, há mais de um ano – o Polígrafo estabeleceu uma parceria, cujo protocolo nunca foi divulgado (não envolvendo, contudo, contrapartidas monetárias imediatas), com a Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre assuntos relacionados com a pandemia.

De acordo com o então anunciado, “todos os fact-checks publicados pelo Polígrafo sobre este tema serão previamente sujeitos a uma validação científica por parte de um especialista designado pela DGS.” (vd aqui: aqui)

Ora, bem sabemos que o Polígrafo tem sido pródigo nas análises em redor da pandemia, alguns delas polémicas, recorrendo quase sempre a um leque muito próprio (quase “residente”) de especialistas, entre os quais pontuam João Júlio Milheiro Cerqueira, que possui, entre os seus atributos, a 248ª posição no seu internato de Medicina Geral e do Trabalho e uma completa ausência de artigos técnicos ou científicos ou de trabalho em projectos de epidemiologia.

Além de ser bastante estranho que um fact-checker não tenha uma posição equidistante relativamenta ao poder – e bem sabemos que, em outras situações, nem sempre o Estado, ou o Governo, diz a verdade –, não me parece curial que o Polígrafo jamais tenha feito a mínima referência sobre quais as análises sobre a covid-19 e a pandemia que tiveram o tal crivo prévio da DGS. Assim sendo, mostram-se legítimas e necessárias as seguintes questões:

a) Das cerca de 440 análises emvolvendo a pandemia, em quase 15 meses, quantas passaram pela “validação” do Ministério da Saúde?

b) Tem a DGS possibilidade de indicar quais os temas/assuntos a analisar e a não analisar pelo Polígrafo?c) Porque razão nenhuma análise teve expressa referência à revisão prévia pela DGS, até porque ninguém é obrigado a saber que existe essa parceria?

d) Os especialistas referidos em cada uma das análises sobre a pandemia foi uma escolha objectiva do Polígrafo, ou foram sendo escolhidos no decurso da “parceria” com a DGS e indicados por esta entidade estatal?

e) Quem são os especialistas designados pela DGS que previamente visualizam as análises do Polígrafo?

f) E não havendo contrapartidas entre o Polígrafo e a Direcção-Geral da Saúde, o mesmo se aplica com os especialistas (quase sempre os mesmos), que estão sempre a botar opinião, naquelas análises? Ou seja, são eles “avençados” pela DGS no âmbito deste protocolo de Março de 2020?

São demasidas questões e dúvidas sobre a acção de um um fact-checker que deveria pugnar pela transparência e equidistância ao Governo.

Mas isso parece pouco preocupar Fernando Esteves e o seu Polígrafo. Na verdade, com a comunicação social quase toda fechada ás vozes que questionem a gestão política da pandemia, as redes sociais são uma das únicas escapatórias para denunciar. Até ao momento em que, hélas, o dedo do Polígrafo queira agir contra os “hereges”. Aí, bastam umas quantas classificações de “Falso” (mesmo quando é Verdade ou são assuntos em discussão) para colocar o “opositor” KO.

Da minha parte tenho, contudo, agora a “promessa” de Fernando Esteves de que “poderia tentar” mandar a minha página abaixo no Facebook, como escreveu no seu longo testemunho que me enviou, mas que “mas nunca o farei porque não o quero transformar num mártir da liberdade de expressão.” Ou seja, apenas para não ser transformado em mártir nenhum mal me acontecerá, mas o mesmo não podem outros dizer, porque o “poder” deste senhor é imenso.

Em todo o caso, se virem a minha página desaparecer aqui no Facebook, lembrem-se do Doutor Fernando Esteves…

Nota: O Doutor Fernando Esteves acrescentou ainda que eu o acusei “infundadamente de censura”, e que a minha suposta “falange de seguidores apoiou efusivamente, dando uma amplitude ao insulto que é mensurável através de ferramentas básicas do Facebook”. Diz ainda ele que “como seguramente imaginará [e eu imagino, sim], tenho facilmente acesso ao impacto que os seus posts tiveram – e têm, porque continuam presentes – na rede e, consequentemente, os danos irreparáveis que provocaram na minha reputação pessoal e no meu negócio empresarial” E conclui: “Tudo isso tem um preço”. Eu sei que tem. A falta de transparência, rigor e independência também.

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