Pedro Almeida Vieira | Economista e Engenheiro Biofisico

Pedro Almeida Vieira

Em 2019, no rescaldo do escândalo da Mafia do Sangue, envolvendo alegados actos de corrupção da Octopharma, surgiu a denúncia de que uma empresa de comunicação – a Alter Ego – teria um contrato de assessoria com o principal envolvido: Paulo Lalanda e Castro.

Havia um pequeno detalhe, sumarento: a Alter Ego era detida por Pedro Coelho dos Santos (assessor de imprensa do INEM e vereador socialistas sem pelouro da CM de Sobral de Monte Agraço) e pelo seu amigo de longa data, Fernando Esteves, actual director do Polígrafo e antigo jornalista da Sábado.

Fernando Esteves foi lesto a desculpar-se, dizendo que desconhecia a actividade da sua empresa e que jamais recebera qualquer verba da Octopharma (vd. aqui).

À data da divulgação destes factos, Esteves já deixara de ser sócio da empresa, em 2018, porventura alarmado com a repercussão do escândalo que já surgira em 2017.

Fernando Esteves sempre menorizou a sua participação na Alter Ego – apesar de se encontrar, na Internet, pelo menos uma sua participação activa como formador num workshop da Apifarma em que surge identificado com a empresa mesmo se era jornalista –, alegando que nunca recebeu dali quaisquer rendimentos, mas uma análise aos relatórios financeiros detalhados desta empresa, entre 2016 e 2019, mostra uma realidade muito sui generis.

Apesar de se poder considerar uma micro-empresa de comunicação, a Alter Ego tem estado em franco crescimento em volume de negócios. Em 2016 facturou cerca de 21 mil euros; em 2017 um pouco mais de 43 mil euros; em 2018 (ano da saída de Fernando Esteves) cerca de 70 mil; e em 2019 já atingia mais de 90 mil euros.

Apesar disso, e da sua actividade ser sobretudo de consultadoria, curiosamente, os aumentos de facturação foram tendo sempre proporcionais aumentos de despesas, de sorte que a empresa foi tendo ou pequenos prejuízos ou pequenos lucros.

Se somarmos a isto que a rubrica gastos com pessoal foi sempre zero em todos os anos em análise, fácil é concluir que houve uma certa contabilidade criativa. Na verdade, em rigor, pode-se dizer que nem Pedro Coelho dos Santos nem Fernando Esteves receberam um tostão da Alter Ego; porém, certamente fartaram-se de apresentar despesas quotidianas. Nas empresas de consultadoria podem entrar quase todo o tipo de despesas… Até papel higiénico. Convém, aliás, e vem nos “manuais”, apresentar o máximo de despesas possível para se ter o mínimo lucro possível. Com muita despesa introduzida. Sem lucro e sem salários nada ou pouco se paga de impostos. Portanto, quando aumenta a facturação há toda uma margem que se cria para meter mais despesa “quotidiana”…

Nessa linha, também não se pode assim dizer que Fernando Esteves e o sei então sócio receberam qualquer verba do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN) por via de um ajuste directo à Alter Ego em 30 de Novembro de 2017 para a “prestação de serviços para a criação de newsletter bissemanal em formato digital para a renovação gráfica da revista digital mensal, e serviços de rebranding do site do CHLN.”

O contrato foi de 5.360 euros por um trabalho de um mês. A “ausência de recursos próprios” foi a justificação para este ajuste directo, mesmo se o CHULN tinha já, no Gabinete de Relações Públicas, a ex-jornalista e ex-assessora de imprensa de dois ministros da Saúde, Paula Ferreirinha.

Recorde-se que, em nome próprio, Fernando Esteves receberia cerca de um ano depois, em finais de 2018, um ajuste directo de 24.185,69 euros (IVA incluído) para a feitura de um livro onde não existe qualquer prova da sua colaboração (vd. aqui, capítulo 02/12 da Novela Polígrafo).

Bom, mas se Fernando Esteves estará agora, aparentemente, fora da Alter Ego, a Pedro Coelho dos Santos não lhe corre agora mal a vida como dono exclusivo da empresa. Embora se mantenha como assessor do Presidente do Conselho Directivo do INEM – e, deduz-se que a tempo inteiro – conseguiu através da Alter Ego e por ajuste directo, em 19 de Outubro do ano passado, um contrato de assessoria de comunicação de três meses por parte do Hospital Amadora-Sintra. O valor: 8.375 euros, ou seja, quase 2.800 euros por mês.

Devem ter ficado contentes com o trabalho dele, porque lhe fizeram novo ajuste directo em Janeiro passado no valor de 48 mil euros por um ano, ou seja, 4.000 euros por mês. Um bom pé-de-meia, portanto, para quem tem já um emprego de funcionário público a tempo inteiro, mas que ficou com a possibilidade de fazer uma perninha como assessor de imprensa num hospital público (vd. contratos, aqui).

Para não dar nas vistas, o contrato no BASE tem os nomes dos signatários rasurados, apenas sendo visível que Pedro Coelho dos Santos é um dos envolvidos porque a cláusula 4 tem o seu e-mail empresarial, que não foi eliminado. Pedro Coelho dos Santos não refere no seu perfil do LinkedIn que é dono da Alter Ego.

Fico por aqui, neste breve quadro do “modus vivendi” de Esteves e seus amigos.

Cada vez penso mais que isto é já, em alguns aspectos, um caso de polícia. Ou melhor, vários.

Apoie o Farol XXI