Elisabete Tavares | Jornalista e membro da Plataforma Cívica – Cidadania XXI

Os nomes são importantes. Chamam-lhe certificado digital, passaporte verde, passe verde e outros nomes bem definidos para bom marketing. Sou vacinada contra muitos vírus. Os meus filhos também. Mas sou também vacinada contra a segregação. A separação em castas. A discriminação. Como portuguesa, como europeia, sei que estes tempos negros para a humanidade vão acabar. O que mais me choca e entristece é ver tantos portugueses que sabem compreender a História e o passado e que promovem este novo “Passe Humano” como se fosse algo inócuo, simples e maravilhoso. Como se fosse o ‘passe para a liberdade’. O último gadget que todos querem ter. Mais um símbolo de status. Mais uma prova de que ‘pertencem’. De que estão em ‘compliance’. As fotos e posts nas redes sociais são claros.

O novo “Passe Humano” é errado. É um atentado contra os mais elementares valores e direitos humanos. Não se ver isso, nem ver as consequências que implica, é para mim a maior surpresa. Tal como outras tentativas que têm existido para segregar, dividir (e melhor controlar e monitorizar) os portugueses, os europeus, acredito que também esta tentativa vai falhar. A humanidade não chegou até aqui para acabar a criar categorias de cidadãos com mais ou menos direitos.

O novo “Passe Humano” é uma das maiores ameaças à civilização europeia e ocidental, como a conhecemos. Instala categorias de cidadãos. Discrimina. Segrega. É contrário a tudo por que os nossos antepassados lutaram para chegarmos aqui. Não ver isso é estar em negação em relação ao que uma tal mudança do sistema de crenças pode trazer para o futuro da humanidade.

Não. O novo “Passe Humano” não é um simples “Passe da Carris” para viajar de avião. Não é um “Passe Lisboa Viva”. É a divisão última de seres humanos. É a concretização de uma Europa que falhou. Uma Europa que se traíu a si própria. Que cedeu nos direitos humanos. Recuou na proteção dos seus cidadãos. Dos seus valores. Uma Europa que se negou a si própria. Se invalidou.

Quando, daqui a uns anos, se olhar para trás e se fizerem as contas, serão criados novos Tratados para impedir a criação de “passes humanos”. Para impedir a segregação. Para impedir que políticos dividam os seres humanos em categorias e lhes atribuam direitos em nome da ‘economia’. Em nome do ‘lucro’. Da ‘mobilidade’ ou da ‘transição digital’. Porque há coisas que simplesmente não têm preço. E cujo valor está acima dos interesses económicos.

Que a Europa se renda (se venda) em nome da ‘economia’ é desolador de ver. Até porque sabemos que é uma desculpa. Sempre que ouvimos ‘economia’ devemos substituir por ‘poder’. Tudo fará sentido.

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