Elisabete Tavares | Jornalista e membro da Plataforma Cívica – Cidadania XXI

Um anti-jornalismo. Um negacionista do jornalismo. Um negacionista dos direitos humanos e dos direitos civis. É isso que vi numa recente ‘entrevista’ na TV ao coordenador da campanha de vacinação.

Jamais um jornalista adota aquele tipo de postura. Jamais. Jamais um jornalista faz, no decorrer de uma entrevista, julgamentos.

Jamais um jornalista promove o incentivo ao ódio contra boa parte da população, seja por questões de saúde, de género, de tom de pele, religião, etc etc.

Jamais um jornalista trata o entrevistado daquela forma, com subserviência e amadorismo.

Recuso chamar aquela ‘entrevista’ de entrevista, porque entrevista é que não foi. Foi uma campanha de promoção que deveria ter o separador de publicidade a que as TVs são obrigadas a ter, para separar informação e programas de conteúdos publicitários.

Qualquer bom jornalista perguntava como se pode comparar óbitos atribuídos a um vírus como este no mês de janeiro – no pico do inverno – com o mês de julho – em pleno verão. Qualquer jornalista perguntava como se explica a descida de óbitos nos meses seguintes (numa base mensal), quando ainda uma pequena margem da população estava vacinada com uma dose e muito menos duas. Qualquer jornalista perguntava como se explica – de forma fundamentada na ciência – que haja mais óbitos este verão do que no verão de 2020. Apenas isto. Perguntava. Se o entrevistado estiver bem preparado tecnicamente ele saberá dar as respostas para informar corretamente. Não foi o caso.

Sou pró-vacinas. Sou pró-informação. Sou pró-jornalismo. Sou contra discursos de ódio. Sou contra qualquer tipo de discriminação. Sou a favor do consentimento informado em qualquer ato médico e toma de medicação. Todo o ser humano é soberano sobre o seu corpo, seja por questões de género ou de saúde, etc.

O que está em causa naquela entrevista, o que condeno, é a destruição da credibilidade do jornalismo e dos jornalistas perante o público em geral. O que para mim é insuportável e inimaginável num país europeu e democrático é ver um jornalista promover numa TV o incentivo ao ódio em relação a cidadãos que legitimamente optam por tomar decisões sobre o seu próprio corpo, saúde e sobre a sua própria família. O que é inadmissível é ver um jornalista fazer o papel de ‘servo’, de ‘praça’ perante um entrevistado que ainda por cima é militar e se apresenta fardado, apesar de estar ali como coordenador de uma campanha de vacinação.

Que a SIC apoie a destruição do jornalismo é para mim desolador. Pela sua história. Pela sua importância e papel no jornalismo, na democracia e na sociedade.

Mais do que uma crise na saúde, que tem deixado um rasto de destruição e mortes agravada pelas medidas extremistas e sem fundamentação que têm sido adotadas em Portugal, vivemos uma crise da democracia e de informação. Só alguns cidadãos estão a ter acesso a informação isenta, imparcial e correta sobre um vasto conjunto de temas. Isso é um retrocesso atroz na nossa sociedade. Um gigantesco passo atrás para Portugal.

Ao jornalista da SIC bastaria ter à sua frente os dados da DGS, a informação divulgada pela OMS. Alguma literatura científica ou posições de peritos independentes em relação às autoridades. Teria de se ter preparado para a entrevista. Para fazer perguntas inteligentes e isentas.

Só condeno publicamente esta ‘entrevista’ pela sua extrema gravidade. Discursos de ódio são perigosos. Alimentam os extremistas e os fundamentalistas radicais. São inaceitáveis numa estação de TV e, sobretudo, num telejornal.Um jornalista jamais vai para uma entrevista ‘armado’ e pronto para atacar parte dos ‘civis’.

O jornalista jamais assume a postura de um militar, que apenas cumpre ordens sem pensar e sem questionar. Um jornalista é um jornalista e serve a verdade, os telespetadores e o jornalismo. O verdadeiro. Cabe aos entrevistados responderem às questões como entenderem. Cabe ao jornalista fazê-las. Sem promover o incentivo ao ódio. Sem insultar cidadãos. Sem fazer julgamentos. Sem se armar em militar. Sem ficar do lado de A ou B. Porque ali, na entrevista, o jornalista representa a classe. E está ali porque tem carteira profissional. Uma carteira e um Código Deontológico. Obediência a militares, governantes e incentivo ao ódio estão excluídos do Código. Pelo menos aqui. Na Europa. Em 2021.

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