Sábado, Maio 28, 2022
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Escolas, crianças e máscaras – Laura Sanches

Laura Sanches | Psicóloga Clínica

Desde Março de 2020 que os direitos das crianças e adolescentes têm vindo a ser deixados de lado em nome de um suposto bem maior. Desde muito cedo que apareceram estudos que demonstraram que as crianças e os jovens não tinham grandes probabilidades de adoecer gravemente com este novo vírus e começaram rapidamente também a aparecer outros que mostravam que, ao contrário do que é costume acontecer com outros vírus respiratórios, neste as crianças e as escolas também não tinham um grande papel no contágio1,9. Uma meta-análise que verificou 90 estudos concluiu precisamente que até aos 10 anos as crianças em contexto educativo têm um risco menor do que o que existe na comunidade2 e uma análise recente dos dados do Reino Unido concluiu que abaixo dos 18 anos de idade existe uma taxa de mortalidade de 0.0053

Ainda assim as escolas em Portugal estiveram fechadas mais tempo do que em qualquer outro país da Europa e temos adotado também das regras mais rígidas no que diz respeito às crianças. 

Neste momento, em que temos a esmagadora maioria dos adultos vacinados em boa parte dos países europeus e encontramos muitos que começam a aliviar as regras nas escolas. Temos vários exemplos de crianças que já regressaram às aulas este novo ano letivo sem máscaras: Finlândia, Dinamarca, Suécia, Reino Unido, Noruega, Hungria5 e, na maioria dos que ainda as pedem elas começam a ser retiradas aos alunos mais novos como acontece na Bélgica6 e na maioria dos cantões das principais cidades da Suíça onde serão retiradas ao quinto e sexto ano. A maioria dos países segue o ECDC7 que só recomenda o uso de máscaras acima dos 12 anos: Genebra e outros cantões, na Suíça8 (que as vai deixar ainda antes do final de setembro até ao 9º ano e nunca pediu antes dos 12 anos), Finlândia, Dinamarca, Holanda10,11 e a Irlanda12

E ainda assim também na maioria dos países que impõe máscaras às crianças, em quase nenhum está previsto que haja um uso ininterrupto destas. Na maioria dos países as crianças só precisam de usar máscara quando estão a circular nos corredores e podem tirá-las quando estão quietas nas salas de aula ou, em alguns casos, quando estão a brincar no recreio, ao ar livre. E isto acontece na grande maioria dos países mesmo com os alunos mais velhos. 

O que mostra que há já um certo grau de reconhecimento que o uso ininterrupto das máscaras pode ter consequências nocivas para as crianças e para o seu desenvolvimento, como aliás mostrou uma meta-análise13 que encontrou quarenta e quatro artigos que demonstram efeitos negativos significativos decorrentes do uso de máscara: fadiga, redução das capacidades cognitivas e um declínio das capacidades psicomotoras, campo de visão limitado (o que facilita acidentes e quedas), sensação de privação da liberdade e perda de autonomia, performance cognitiva prejudicada, dor de cabeça, acne no local da máscara, irritações da pele, desconforto e humidade na zona da cara (uma zona que temos sempre mais dificuldade em ignorar e que tem um papel muito significativo no nosso bem-estar, visto que tem uma grande representação no cérebro), ansiedade e reações de stress, aumento das doenças psicossomáticas, aumento da depressão, retirada social, menos vontade de agir ou participar na comunidade, diminuição dos cuidados com a saúde, ouvir pior e dificuldade em se fazer ouvir e embaciamento dos óculos. Um estudo observou que 50% das pessoas que usam máscara com regularidade e frequência tinha sintomas depressivos ligeiros. 

 Todos estes sintomas foram encontrados em adultos. Mas, os autores da meta-análise assumem que nas crianças devemos esperar os mesmos efeitos, mas ainda com mais intensidade. Nesta faixa etária as investigações concluíram que as crianças entram mais facilmente em hipoxia, pelas especificidades do seu aparelho respiratório e pelas exigências de um organismo que ainda está em desenvolvimento. 

Um estudo13 em que 106 crianças usaram apenas durante 5 minutos uma máscara ffp2 mostrou um aumento do CO2 expirado, o que é indicador de uma fisiologia respiratória perturbada, que pode levar a doenças a longo prazo. Níveis ligeiramente elevados de co2 podem aumentar o ritmo cardíaco, a pressão arterial, dor de cabeça, fadiga e perturbações de concentração. As máscaras também causam medo em 46% das crianças e 49% afirmam não querer que o médico que as examina as use se puderem escolher. 

Outro estudo13 que envolveu 25 930 crianças na Alemanha verificou que 53% das crianças se queixavam de dores de cabeça, 50% de dificuldades de concentração, 49% de falta de alegria, 38% de dificuldades de aprendizagem, 37% de fadiga. 25 % tinham começado a ter ansiedade e pesadelos. As máscaras ajudam a manter e a exacerbar o medo.

Todos sabemos também que é muito mais difícil comunicar quando usamos máscara e têm sido comuns as queixas de problemas de voz e garganta por parte dos professores desde que começaram a ser usadas14

Um estudo que foi feito em Espanha15, que também tem sido dos países menos respeitadores das crianças chegou a algumas conclusões interessantes. Analisou a propagação da covid entre várias idades e níveis de escolaridade e concluiu que as crianças mais novas – que não usavam máscara e cumpriam menos regras de segurança – eram aquelas que tinham menores índices de contágio. À medida que a idade das crianças ia aumentando, mesmo com o uso de máscara, os níveis de contágio também aumentavam. Este estudo deve fazer-nos questionar o uso das máscaras, mas também toda a abordagem que temos tido já que é muito menos provável que uma criança de 3 ou 4 anos não partilhe objetos, não tenha contacto físico com os colegas e seja capaz de cumprir todas as regras e ainda assim contagiam menos do que um adolescente que já será mais capaz de seguir todas as regras. Algo que também é demonstrado por este estudo que não encontrou evidências de que as medidas nas escolas fossem eficazes a conter o vírus. 16

Portugal é já um dos países mais vacinados no mundo, com uma taxa de vacinação superior à de muitos países que escolheram já libertar um pouco as crianças. Parece haver já um consenso entre os especialistas que as vacinas que temos disponíveis para lidar com este vírus têm um papel importante na proteção contra as formas de doença mais graves que aconteciam sobretudo nos grupos de risco. Este era um dos grandes argumentos que nos fazia manter as medidas: a eventual sobrecarga do SNS que podia não aguentar um grande número de pessoas gravemente doentes com este vírus. Neste momento temos já um tratamento aprovado pela EMA16 e outros em fase de pré- aprovação e já não podemos dizer que estamos na fase inicial em que pouco ou nada se sabia sobre a forma de lidar com a covid. Todos os especialistas são também unânimes em reconhecer que nunca se produziu tanta investigação sobre um único tópico em tão pouco tempo. Na verdade, tem acontecido algo que até há pouco tempo era inédito na história da ciência: a publicação em jornais e revistas da comunicação social e também nas redes sociais de estudos que ainda não foram sujeitos a validação científica externa e independente (revistos por pares), o que quer dizer que podem até nem vir a ser aprovados para publicação porque poderão conter falhas metodológicas mais ou menos graves que o público em geral não terá capacidade para detetar. 

Têm sido denunciados também vários conflitos de interesse de muitas das investigações que vão sendo feitas e nunca os resultados das investigações foram tão discutidos e debatidos pelas pessoas por um lado e, ao mesmo tempo, tão pouco questionados pelos principais órgãos de comunicação social. 

Na verdade, se olharmos para os países que estão já a retirar as máscaras das escolas e para aqueles que nunca chegaram sequer a impô-las às crianças mais pequenas percebemos que, mesmo antes de tudo isto começar, eram países que já podíamos considerar mais respeitadores dos direitos das crianças. São países em que a licença de maternidade é mais longa, em que nas creches e jardins de infância existe um número menor de crianças por cuidador (embora isso já não se verifique a partir do primeiro ciclo), países em que as crianças passam bem menos horas por dia nas escolas e em que existe uma maior valorização do tempo em família, em que as crianças têm muito mais tempo de ar livre mesmo com climas bem piores do que o nosso. Na Alemanha, por exemplo, é reconhecido e aceite que a adaptação das crianças deve acontecer com a presença dos pais dentro da escola o tempo que for necessário18. E lá, como na maioria destes países, os educadores nunca chegaram a usar máscara o dia inteiro porque é importante que as crianças pequenas consigam ver o rosto completo dos adultos para serem capazes de identificar as suas expressões e emoções correspondentes o que é essencial para que se sintam seguras, mas também é muito importante na aprendizagem do reconhecimento das suas próprias emoções. Além da importância que tem para crianças em fase de aquisição da linguagem a possibilidade verem os lábios dos adultos. Em Portugal já vários especialistas alertaram para os atrasos na linguagem das crianças que se tornaram muito mais frequentes19

Infelizmente temos a ideia de que as crianças se adaptam, o que é verdade, porque as crianças estão ainda em fase de aprendizagem e de desenvolvimento o que é tanto uma vantagem como um problema. Porque não queremos que as crianças se adaptem a não ser capazes de criar uma ligação com os adultos que cuidam delas, não queremos que se adaptem a não serem capazes de identificar emoções nos outros nem em si mesma, não queremos que se adaptem a um mundo em que as fazem sentir que é perigoso tocar, abraçar, beijar e até partilhar, não queremos que se adaptem a sentir que são um perigo para os avós. Não queremos que se adaptem a sentir que as outras pessoas são um perigo para elas. Essa adaptação vem com um preço para a sua resiliência, para a sua capacidade de lidarem com o mundo e consigo próprias e para a sua capacidade de serem felizes. Porque uma criança que não se sente segura com os adultos, que não sabe identificar emoções e não é capaz de as expressar é uma criança mais sozinha, mais alarmada, mais ansiosa e mais insegura. 

As máscaras representam um perigo constante. Transmitem a ideia de que os outros são perigosos, de que existe qualquer coisa que não vemos, mas que nos pode pôr em perigo. As crianças nascem programadas para se sentir atraídas por todas as formas que se assemelhem a um rosto humano. Procuramos nos outros pistas de segurança sempre que estamos com eles e isto acontece sobretudo através da linguagem não verbal. Nas crianças este mecanismo é ainda imaturo por isso elas precisam de mais pistas, quanto mais pequenas forem mais difícil será sentirem segurança sem ver parte do rosto das pessoas com quem estão. 

É altura de reconhecer que as crianças e os jovens nunca estiveram em perigo por causa do vírus, mas o seu desenvolvimento está a ser colocado em risco por causa das medidas. Não só do ponto de vista psicológico, mas até do ponto de vista físico, já que muitos pediatras alertaram para o aumento da circulação de vários outros vírus bem mais perigosos para as crianças por causa de todas as medidas excessivas com que têm vivido20. A máscara não é a única medida que as prejudica, mas é, juntamente com a impossibilidade dos pais entrarem nas escolas e a falta de tempo para a brincadeira livre, uma das mais nocivas para o seu desenvolvimento do ponto de vista psicológico. É altura de libertar as crianças e de mostrar que realmente somos capazes de as respeitar. Já não é admissível que continuemos a pôr o bem-estar das pessoas mais velhas à frente do bom desenvolvimento dos nossos jovens. 

1-    Eurosurveillance | Minimal transmission of SARS-CoV-2 from paediatric COVID-19 cases in primary schools, Norway, August to November 2020

2- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8285769/#R118

3- https://assets.researchsquare.com/files/rs-689684/v1/3e4e93fb-4e98-4081-9315-16143c2bbd2b.pdf?c=1625678600

4- https://www.helsenorge.no/en/coronavirus/face-masks/#children-and-face-masks   

5- https://hungarytoday.hu/govt-in-person-education-hungary-fourth-covid-wave/

6- https://onderwijs.vlaanderen.be/update-corona-start-schooljaar-met-beperkte-coronamaatregelen?fbclid=IwAR2TN2QO9tXv00MpI-1cuLHrVhaqvqib0ycpf83EBnErffW6aUHJWiojs0s  / https://www.hln.be/home/risicopatient-casimir-11-kan-niet-veilig-naar-school-nu-mondmaskerplicht-is-afgeschaft~a029d4fa/

7- https://www.ecdc.europa.eu/en/covid-19/questions-answers/questions-answers-school-transmission

8- https://www.ge.ch/document/mesures-covid-19-rentree-scolaire-2021-2022-geneve

9- https://www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(20)30882-3/fulltext

10- https://www.government.nl/topics/coronavirus-covid-19/face-masks-mandatory-in-all-indoor-public-spaces

11- https://www.rijksoverheid.nl/onderwerpen/coronavirus-covid-19/mondkapjes/op-school?fbclid=IwAR2BVPwbK9li1gwOfG4WydDd5kxPYogcLbJEsoX0JQXFMzcJajkkAY85ifI

12- https://www.irishtimes.com/news/education/no-requirement-for-face-masks-for-primary-schoolchildren-on-reopening-1.4650417?fbclid=IwAR04Q4jSByU8oABUYfZh1bT57AfxwjxoB9ydiJGl_5D31HDpTk0aBCKGkQk

13- https://www.mdpi.com/1660-4601/18/8/4344?fbclid=IwAR35_ccjW_zq6LOpwwQf3g8yirjz1DjIdUfGlLxf-31o7vsyjGgupSj03hg

14- https://www.dn.pt/sociedade/especialista-alerta-que-uso-de-mascara-aumentou-doencas-da-voz-13563356.html

15- https://journals.lww.com/pidj/Abstract/9000/Age_dependency_of_the_Propagation_Rate_of.95714.aspx

17- https://www.ema.europa.eu/en/human-regulatory/overview/public-health-threats/coronavirus-disease-covid-19/treatments-vaccines/covid-19-treatments

18- https://www.familie.de/kleinkind/berliner-modell

19- https://www.publico.pt/2021/03/22/sociedade/noticia/uso-mascaras-atrasar-desenvolvimento-bebes-especialistas-receiam-sim-1955197

20- https://www.stuff.co.nz/national/health/125688496/rsv-outbreak-hospitals-and-gps-flat-tack-as-virus-hits-children-across-nz

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